29.01 | 26.04. 2026

liliya lifanova, lucas samaras: THE ESTRANGEMENT SET

Existem paralelismos marcantes e afinidades ressonantes entre as práticas e até mesmo entre as trajetórias biográficas de Liliya Lifanova e Lucas Samaras (1936–2024), apesar das diferenças formais e da distância temporal que os separa. A natureza poliédrica do trabalho dos artistas – um protesto silencioso e singular, uma celebração do marginal e do outsider – resiste à lógica classificativa e às narrativas artísticas dominantes. No cerne de cada prática encontra-se uma exploração da identidade, conduzida em espaços cuidadosamente construídos, com condições de luz, objectos manufacturados e indumentária, essenciais para a produção criativa de ambos, ainda que raramente evidenciados.

THE ESTRANGEMENT SET de Lifanova ocupa toda a galeria através de uma plataforma inclinada povoada por elementos escultóricos díspares, reorganizando o espaço de modo a constelar condições de desfamiliarização – um ambiente deliberadamente dissonante, uma suspensão do banal, concebido para deslocar o espectador da percepção habitual. A instalação evoca Room #1 (1964) de Samaras que recriava o seu estúdio em New Jersey como cenário e matéria do seu trabalho. Tal como Samaras, Lifanova apresenta um inventário de objectos da sua série TO FOLD; contudo, enquanto Room #1 insiste na presença e na imediatez psíquica, THE ESTRANGEMENT SET enfatiza distância, limiar e mediação. Os seus objectos são depurados, polidos e austeros, refletindo uma condição contemporânea em que a interioridade é formalizada e deslocada. Em conjunto, estas abordagens enquadram o arquivo não como um repositório estático, mas como um lugar carregado e instável, no qual o eu permanece perpetuamente em formação. Inseridos neste ambiente encontram-se as Photo-Transformations (1973–76) de Samaras, autorretratos em Polaroid alterados com reagentes químicos de forma a produzirem imagens psicadélicas e inquietantes.

Prolongando a interação entre o espaço psicomaterial da criação e o domínio público, Addenda II, do conto Dickman (1961–62) de Samaras, é colocado de forma a ser lido à entrada da exposição. O texto estabelece o tom psíquico da instalação: uma alegoria visceral da herança artística em que a história deve ser absorvida, digerida e sustentada, sendo o acto de engolir simultaneamente necessário e oneroso.

Um livro de artista será editado pela esculápio edições de artista.

There are striking parallels and resonant affinities between the practices – and even the biographical trajectories – of Liliya Lifanova and Lucas Samaras (1936–2024), despite the formal differences and temporal distance that separate them. The polyhedral nature of both artists’ work – a quiet, singular protest and an assertion of the self as misfit and outsider – resists classificatory logic and prevailing artistic narratives. At the core of each practice lies an exploration of selfhood, pursued through carefully constructed spatial environments shaped by light, handcrafted objects, and attire, conditions essential to their work though rarely foregrounded.

Lifanova’s THE ESTRANGEMENT SET occupies the entire gallery via a tilted platform populated with disparate sculptural elements, reshaping the space to constellate conditions of estrangement – an environment deliberately dissonant, a suspension of the ordinary, designed to dislocate the viewer from habitual perception. The installation recalls Samaras’s Room #1 (1964), which reconstructed his New Jersey studio as both setting and material for his work. Like Samaras, Lifanova presents an inventory of objects from her TO FOLD series; however, where Room #1 insists on presence and psychic immediacy, THE ESTRANGEMENT SET emphasizes distance, threshold, and mediation. Its objects are pared down, polished, and austere, reflecting a contemporary condition in which interiority is formalized and displaced. Together, these approaches frame the archive not as a static repository, but as a charged and unstable site in which the self remains perpetually in formation. Nested within this environment are Samaras’s Photo-Transformations (1973–76), Polaroid self-portraits altered with chemical reagents to produce psychedelic, uncanny images.

Extending the interplay between the psychomaterial space of creation and the public realm, Addenda II from Samaras’s story Dickman (1961–62) is positioned to be read at the exhibition entrance. The text sets the psychic tone of the installation: a visceral allegory of artistic inheritance in which history must be absorbed, digested, and endured, the act of swallowing both necessity and burden.

An artist book will be released by esculápio artist editions.

 

Lucas Samaras, Room #1, 1964 © 2020 Lucas Samaras

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milla lozanova, tiago rosa, gonçalo cardoso, arlindo figueira